Tráfico de drogas, sequestros, assaltos e arrastões. Esses crimes são recorrentes no cotidiano do brasileiro, principalmente nas grandes capitais. Em As Crônicas do Cascavel, escrito pelo jornalista paulistano Guilherme Solari, o personagem Valter Torres, dono de uma videolocadora, se transforma em vigilante após ter a loja assaltada seguidamente. É nesse episódio que a querida tartaruga de estimação dele, Charles Bronson, morre esmagada. A partir desse dia, a vida de Torres se transforma. Decidido a lutar contra o crime na capital paulista, agora com o codinome de Cascavel, ele sai pelas ruas com um único objetivo: limpar a cidade dos vilões.

Fã de clássicos filmes de ação e ficção dos anos 80, Cascavel faz uso de falas clássicas pronunciadas por personagens interpretados por atores como Van Damme, Steven Seagal, Chuck Norris e Bruce Willis. No diálogo abaixo, por exemplo, o dono da videolocadora se inspira em uma frase de Sylvester Stallone, no longa Stallone Cobra (1986), em que ele diz ser “a cura” para o crime.

– Quem está aí?! – perguntaram novamente, obtendo uma resposta desta vez. 

– A cura – disse uma voz rouca da escuridão. 

– Cura?! Cura do quê? 

– Da doença – respondeu a voz, de outro canto agora. 

A partir daí, o personagem se envolve em uma série de tramas. Em um dos episódios, ele vai atrás do cativeiro de Marina Sabrim, uma garota de 16 anos, que havia sido sequestrada. Já em outra passagem, ele encara um tiroteio dentro de um shopping lotado na véspera do Dia das Mães, mas mesmo assim, sai de lá com um presente para a mãe, dona Ritinha.

O vigilante pegou a sacola da Zara do chão. A loja estava sem vendedoras, mas Cascavel pegou uma blusa que achou bonita e deixou o dinheiro no balcão. Só esperava que fosse do tamanho de Dona Ritinha. Viu satisfeito que ela não estava com sangue. Se os marginais a tivessem sujado de sangue Cascavel ia ter que achar um jeito de matá-los de novo.

 

Com linguagem bem-humorada, o autor humaniza o personagem ao revelar, por um lado, um herói disposto a lutar contra a violência, e por outro, alguém que ainda é mimado pela mãe.

– Eu fiz tostex e achocolatado. 

Cascavel pensou um pouco antes de responder. 

– Você fez bem queimadinho? – inquiriu o vigilante. 

– Claro, filho. Do jeitinho que você gosta. 

Cascavel considerou que aquelas calorias poderiam ser bem utilizadas no combate ao crime. 

– Tá bom. Deixa aí que eu pego!

A obra, com 25 crônicas que se entrelaçam, retrata diversas aventuras de Cascavel contra a criminalidade em São Paulo. A ideia para a criação do personagem, inclusive, veio de uma notícia de jornal que o autor, Guilherme Solari, leu sobre o dono de uma videolocadora que havia sido assaltado seguidas vezes na capital.

Mas se engana quem pensa que Cascavel é um herói clássico. Ele às vezes acaba causando mais violência e destruição que os próprios bandidos, elevando essa ultraviolência a um absurdo cômico. Por exemplo, em determinado trecho da história ele chegou a usar uma granada pra ajudar um gato a descer de uma árvore, destruindo a árvore e derrubando o que restou do animal.

Solari usa seu olhar jornalístico para denunciar desde grandes problemas sociais como o tráfico de drogas na Cracolândia até questões cotidianas, como o trânsito pesado na capital paulistana. As histórias, que agradam muito quem gosta de narrativas de ação e ficção, mostram a transformação de Valter no herói que São Paulo merece.

Uma obra que chega às livrarias de todo o Brasil para o público que adora uma boa ficção, aventura e também os que são aficionados pelos filmes clássicos dos anos 80 como o irreverente e persistente Cascavel.

Leia os primeiros capítulos  em: ascronicasdocascavel.com