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Hoje estamos começando a nossa nova coluna chamada “Diário Teen”, na qual vocês leitores poderão enviar relatos pessoais de fatos de seu cotidiano, como se fossemos o seu diário. Você poderá falar sobre como superou aquela briga com a BFF, como saiu do armário, sobre o bullying que está sofrendo, aquele primeiro beijo, enfim sobre qualquer coisa. Lógico que nem tudo será publicado, portanto para ter seu relato no site não esqueça de escrever com detalhes e qualidade. 

E para abrir nosso “Diário Teen”, o relato do Lucas, que nos fala sobre seus problemas com a anorexia e como ele superou seus distúrbios alimentares. Vamos lá?!!!

Difíceis foram os dias em que, mesmo de manhã, estava aquele calor insuportável e eu estava indo para a escola de blusa de frio para que estas me deixassem mais magro. O pior não era o calor em que sentia, e sim as piadinhas sobre os “amigos” me perguntando porque da blusa e eu sempre dizendo que havia passado mau a noite toda e devia estar com febre.

Diante dessas situações, vez ou outra surgia uma piadinha sobre peso ou como eu era “gordinho”, mas que eu era lindo dessa maneira. Você começa a desencadear uma série de coisas psicológicas que te afetam fortemente. Eu estava acostumado a ser o gordinho bonitinho, o garoto com notas boas ou o menino que no recreio ficava no canto do pátio lendo os livros da biblioteca ou que ganhara dos pais.

Pesando 95kg, fui empregado na parte administrativa de uma empresa. Por onde que você passasse sobre os corredores do armazém, era possível localizar uma balança que os auxiliares pesavam as caixas. Eu comecei a me pesar toda semana, pelo menos 1 vez ao dia, e meu peso oscilava de 95kg à 97kg.

Tentei uma dieta, uma na qual eu sabia que não conseguiria. Eu tinha 17 anos, não queria emagrecer. Eu queria comer mais doces, queria ler meus livros e assistir as minhas séries enquanto comia pipoca e tomava refrigerante.

Depois de 1 ano e 7 meses fui mandado embora dessa empresa e pude ficar em casa, onde eu já tinha determinado que eu iria emagrecer a qualquer custo.

Eu confesso que na época (2012) eu não sabia o que era distúrbios alimentares (anorexia, bulimia e compulsão alimentar). Eu apenas queria poder emagrecer para chocar as pessoas; mas estando em casa é ainda mais difícil! Porque estando em casa você fica exposto as latas de leite condensado, as bolachas recheadas e aos refrigerantes estocados na geladeira e armários da copa. Você fica louco!

Entrando no meu segundo – e atual – emprego, comecei a trabalhar com mulheres e mulheres só falam sobre emagrecer e o quanto queria perder alguns quilinhos. Iniciei uma dieta em que você comia muita carne, mas muita carne mesmo em que chegava a passar mau de tão estufado que se sentia. Em seguida, comecei a me sentir culpado (e ainda mais gordo) por me sentir tão cheio daquela maneira, e sem nem mesmo perceber, desenvolvi bulimia. Eu queria a sensação de vazio dentro de mim. Eu queria que a voz na minha cabeça parasse de me chamar de gordo enquanto eu sabia que todas aquelas calorias estavam indo para a minha barriga e coxas.

Passado uns 8 meses, eu estava cansado de vomitar; e nada mais nessa vida me assusta mais do que a bulimia. Então eu simplesmente decidi reduzir minha alimentação. Comer somente o necessário para que eu me sentisse bem; então comecei a reduzir pequenas refeições, começando pelo almoço. E no café da manhã eu comia somente uma bolacha água e sal. Durante o dia, água, chá e café a vontade. E na janta eu pegava o menor tapoer da casa em que cabia na palma da minha mão e o enchia de comida para enganar o meu cérebro achando que estava comendo muito. Isso não durou muito tempo, porque mesmo que o tapoer fosse pequeno, eu sentia necessidade de reduzir a comida em que estava jantando.

Garotos - AnorexiaComecei a ter pequenas reações: sentia tontura constante, dores de cabeça, fraqueza e muita fadiga. Mas a parte boa era que na balança eu estava perdendo quase 1kg por dia.

Lembro-me de uma semana em que entre segunda e sexta consegui eliminar 6kg. Ou seja, por sexta-feira ser o “quinto dia da semana”, por assim dizer, eu já tinha compensado o sábado também.

Pra quem pesava apenas 1 vez na semana no primeiro emprego, eu estava pesando de 8 á 12 vezes no dia, isso no final de 2013.

No começo de 2014, minha mãe começou a perceber minha queda de peso e a quantidade de roupas em que eu estava perdendo e pediu para que eu fosse no psiquiatra e foi o que eu fiz. Por que? Porque você vive uma prisão mental tão grande que parece que você vai enlouquecer. E eu também quero poder comer um bis sem começar a chorar, ou me permitir outro balde de pipoca com um copo de coca sem pensar nas calorias.

Hoje estou fazendo um tratamento intensivo num centro especializado para transtornos alimentares onde o único garoto sou eu. Por essa razão, chamei a atenção dos médicos em geral. E mesmo me achando exageradamente gordo, as outras garotas do tratamento me acham extremamente magro. Isso me assustou, porque se até mesmo pra elas que são anoréxicas e bulímicas elas me acham magro por que diabos ainda continuo me vendo gordo?

Hoje estou com 74kg, e quero chegar nos 65kg. O tamanho do meu pulso assusta os médicos e a galera do trabalho, mas eles reconhecem que estou numa briga comigo mesmo e que não consigo sair disso.

No twitter até faço umas brincadeirinhas com isso e no facebook posto coisas relacionadas a esse problema com uma pitada de humor negro.

Uma vez quis me isolar do mundo e deletei twitter, instagram e facebook, achando que dessa maneira eu não ficaria exposto as minhas vontades: não iria ver fotos de bolos de chocolate ou coisas do tipo. Mas percebi que era pior. Voltei a pouco com todas as redes sociais (deixando o nickname @lucaslcamargo e atendendo como @baratais) e foi uma das melhores coisas que eu fiz porque todos os meus amigos têm me dado apoio. E desde que eu tornei isso público, no facebook pelo menos, inúmeras pessoas (até mesmo as quais eu não converso) me chamaram por inbox para me dar forças dizendo que já tinham passado pelo mesmo problema. A ideia foi apoiada de tornar isso público. Desenvolvi manorexia, como os médicos dizem (anorexia em homens) em 2012 e me mantive quieto por vergonha. Hoje, falando para as pessoas, algumas delas se identificam.

Fico realmente grato pela oportunidade de estar contado isso ao site. Por ser um site teen tenho certeza que alguns adolescentes – especialmente meninas – passam por isso ou algo parecido. Infelizmente não posso aconselhá-las, até porque quero continuar emagrecendo. Mas acima de tudo: se aceitem!

E para aquelas que não ligam para o corpo e que comem mesmo e não estão nem aí, eu as invejo, porque eu realmente queria ser dessa maneira. Acho que já me esqueci de quando comi um brigadeiro sem me sentir culpado e acabar chorando após engoli-lo.

Lucas

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