Pode beijar à vontade: você não vai pegar sapinho e herpes de ninguém. Pelo contrário, o contato bucal entre duas pessoas pode ser benéfico e ajudar a criar imunidade para certas doenças, como mononucleose infecciosa, hepatite A, caxumba, sarampo e até gripe. A explicação é do Dr. Silvio Boraks, estomatologista com mais de 12 mil pacientes atendidos em sua clínica particular. Ainda não muito bem conhecida pelo grande público, a especialidade foca nos problemas relacionados à boca, dos mais simples aos extremamente complexos.

Referência no campo no Brasil, Dr. Silvio ajudou a difundir a estomatologia no país no início dos anos 70 e fundou departamentos dedicados ao estudo da disciplina em diversas universidades e hospitais. Para ele, em alguns casos o beijo funciona como uma vacina. “Quando beijam na boca, as pessoas entram em contato com micro-organismos estranhos ao seu organismo, o que provoca a formação de anticorpos. Claro, desde que estejam em bom estado de saúde, sem ferimentos na região e sejam imunocompetentes – ou seja, capazes de produzir respostas imunológicas a antígenos”, conta Boraks.

Isso ocorre porque a boca tem um sistema de proteção eficiente, afinal, é a porta de entrada ao organismo humano. A saliva atua com predominância nesse sistema, através da mucina, proteína que dá viscosidade e protege a mucosa bucal; da ptialina, que inicia o processo de digestão; e das imunoglobulinas, elementos de defesa do organismo.

O caso do sapinho e do herpes é diferente. O primeiro, um fungo natural do ser humano, já está presente na flora bucal de todos. O segundo é um vírus que, em geral, se adquire ainda nos primeiros anos de vida e cerca de 85% a 90% da população mundial o possui de forma latente, ou seja, quase todo mundo é portador. “Ambos só eclodem quando há uma baixa na imunidade, e não pelo contato físico”, conta o especialista.

O que não significa que sejam inofensivos. Em alguns casos, o herpes pode chegar até o cérebro se não for tratada. Já com relação ao sapinho, o problema é a desinformação. “Há uma tendência em chamar toda manchinha branca na boca de sapinho, quando na realidade pode se tratar de uma leucoplasia, lesão esbranquiçada que precede o câncer e que também não tem nada a ver com beijo”, afirma o Dr. Silvio.

“No final das contas, pouco se sabe da boca”, diz ele, que critica a ideia de que saúde bucal é apenas “escova e pasta dental, dente e gengiva”. A estomatologia busca sanar essa deficiência, e atende principalmente pessoas que se enquadram em três grandes grupos: as com doenças bucais propriamente ditas, aquelas que sofrem de problemas de saúde que causam reflexos na região e pacientes com males diversos que necessitam atenção odontológica especial, como diabéticos, cardíacos e os que passam por tratamentos com rádio ou quimioterapia, entre outros.

Há mais germes que podemos pegar com um aperto de mão do que com um beijo na boca, mas a higiene bucal e pessoal continuam sendo essenciais, afinal ninguém quer beijar aquela boca nojenta, não é mesmo.

Portanto, o beijo na boca está liberado, e claro os cuidados que devem ser tomados no sexo oral, no entanto, estes são outra história.

Sobre o Dr. Silvio Boraks
Especializado em estomatologia, que estuda e trata as doenças ligadas à região bucal. Com mais de 45 anos de experiência e uma casuística de milhares de pacientes atendidos em clínica privada, hospitais e faculdades, Silvio Boraks é referência na especialidade no Brasil e ajudou a estruturar a disciplina em diversas universidades ao redor do país. É professor doutor aposentado da Faculdade de Odontologia da USP e diretor do Departamento de Estomatologia e Cirurgia Bucomaxilofacial do Instituto do Câncer. Além disso, escreveu três livros sobre o tema, publicados em português e espanhol. www.silvioboraks.com.